Era uma vez uma cidade única. Seus habitantes eram belos, limpos, alvos, tinham um conhecimento inigualável, tinham idéias brilhantes. Seus governantes eram excelentes, não tinham falhas de qualquer espécie, faziam tudo do bom e do melhor, eram exímios na arte de governar. Os serviços de água, luz, esgoto, coleta de lixo e transporte funcionavam perfeitamente. Nunca houvera racionamento de água, uma queda de energia elétrica, um apagão nos telefones, não haviam ruas com lixo e não havia sujeira. A cidade brilhava em uma brancura ensurdecedora. Pois o branco era tal que para humanos comuns haveria um chiado leve, como fazem as televisões mais antigas da nossa sociedade, que ensurdecia a mente de qualquer um. Televisores, eletrodomésticos, carros e todos os artigos que em nossa realidade são o mais alto nível do luxo e modernidade, estes todos tinham, não havia uma casa sem computadores, IPODs, televisores finos e caros.
A vida era perfeita, entretanto numa análise mais acurada repararíamos que faltava algo, algo que nós estamos acostumados, não, não é o aumento do caos e da violência, nem o congestionamento infernal das 6 da tarde, também não era a tristeza (todos sorriam). Tudo corria perfeitamente, mas havia algo estranho no ar, pairava a falta, o vazio, mesmo tudo sendo tão branco, tão limpo, tão belo, tão perfeito. Ninguém poderia querer algo melhor, mas faltava alguma coisa.
Foi então que uma vez um humano comum passou por essa cidade, e seus habitantes não reconhecendo tal pessoa acharam estranho, mas foram solicitos e ajudaram ao viajante, pois sim só poderia ser um viajante. Ele trajava roupas estranhas, não eram brancas, não eram limpas, seu aspecto não era visivelmente saudável. Seus lábios leporinos geraram aversão em algumas das pessoas, sua pele escurecida e manchada, seus cabelos duros e sujos, seus dentes faltavam e não tinham o brilho habitual daqueles dos habitantes da cidade.
O guarda foi chamado para resolver o caso, nunca havia acontecido isso antes, nunca entrara alguém estranho na cidade, nunca houvera nada incomum naquela cidade, aquele lugar era somente paz. O guarda também não sabia o que fazer e chamou o chefe de polícia que olhou para a roupa andrajosa do caminhante e começou a espirrar e tossir, os habitantes também estranharam tal reação, os adultos jamais ficavam doentes naquela cidade. Olharam para o homem e pensaram logicamente que este era a causa de tal problema, decidiram chamar o prefeito para resolver o caso e expulsar tal homem. O prefeito veio balançando sua enorme barriga e fechando seu rosto para o transeunte que olhava perplexo para o que acontecia, mandou a guarda levar o homem embora e escorraçá-lo da cidade.
O homem falou pela primeira vez, consternado com tal reação e começou a gritar enquanto era empurrado pelos guardas em meio a multidão que havia se reunido no paço da cidade. Protestava gritando:
-Por favor senhores...
Mas nenhum dos guardas lhe davam oportunidade de falar.
-Por favor senhoras...
Mas nenhuma mulher foi capaz de deixar o homem falar.
-Por favor, OUÇAM!!!
Gritou o homem e ninguém intervinha no empurra-empurra que se fazia contra tal homem. Quando o homem chegava aos limites da cidade, acompanhado atrás de si pela multidão brilhante de tão alva, uma criança se interpôs entre a placa de limite da cidade e os guardas que empurravam o homem. Toda a população olhava perplexa para a cena. Nunca houvera uma só interposição naquela cidade, uma briga, uma discórdia, todos se davam tão bem, todos concordavam tanto entre si, que não havia necessidade para tal, mas a criança gritou.
-Parem! Ouçam o homem.
Estarrecido, o povo não discordou da criança, não havia discórdia. O contraste da alvura daquele local e o negror do homem foi incrível naquele momento e um silêncio extremamente cegante cobriu a cidade.
-Venho de outras terras buscando um lugar. - disse o homem com dificuldade depois da tanto esforço. - Lá falam de uma terra em que todos são felizes e tem paz sempre. Dizem que é a Cidade Perfeita. - a tosse rouca atrapalhava a fala, mas o homem prosseguia. - Mas também dizem que se esqueceram de nós. Dizem que nós fomos esquecidos por todo um povo. - o homem olhava com vigor para as pessoas. - Lá onde moro, existem pessoas de todo o tipo, doentes, pobres, velhos, novos, crianças, negros, brancos, orientais e mesmo sendo tão diferentes estamos todos juntos. Dizem que nossas mazelas são porque usurparam o nosso direito de viver, usurparam nosso direito de ser feliz e dizem que estamos fadados a um fim tenebroso. - disse o homem com calma. - Vim como mensageiro, mas vim contra todos os meus irmãos, vim sozinho para buscar a terra da felicidade. Para lembrar vocês e para buscarmos todos uma solução, para que vocês possam nos ajudar.
Admiração e espanto cobriram a população daquela cidade, mas não era o homem maltrapilho que estava na frente de todos, não foi a criança que parou a polícia, mas foi que algo estranho havia acontecido, eles não sabiam o que. Parecia que faltava mais alguma coisa entre eles, mas ninguém sabia o que era, não havia como saber e nunca entenderiam. Passaram-se minutos até que alguém falasse e a fala saiu rouca e fraca.
Quem olhasse do alto aquela cidade naquele dia, veria que ela já não brilhava tanto quanto antes, mas o mundo inteiro estava salpicado de centelhas brilhantes, como se estrelas brilhassem em todo o globo.

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