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sábado, 7 de fevereiro de 2009

O Dia em que não houve notícia

Certo dia os televisores dos habitantes daquele país ligaram e não houve notícia. Não houveram acidentes, mortes, assaltos, seqüestros, nascimentos, não houve nada que merecesse atenção da população. Simplesmente o apresentador do jornal desejou bom dia e nada mais disse, olhou somente para a câmera durante aquela hora com uma cara sem expressões. Na verdade a redação do jornal estava parada, não houve serviço naquele dia.
As pessoas na rua andavam, mas sem rumo, comiam, se vestiam, conversavam e faziam coisas que habitualmente qualquer cidadão daquela sociedade fazia, mas faziam tudo que faziam sem nenhum motivo e sem nenhuma conseqüência importante.
As bancas de jornal funcionaram normalmente, é claro. As pessoas compravam exemplares fresquinhos em branco. Somente o título do jornal e a data vinha na parte superior do jornal, mas ninguém se perguntava a razão pela qual aquilo estava daquela forma. As rádios tocaram música somente, até mesmo aquelas que “tocavam notícia” não tiveram uma notícia ao menos. O fenômeno passava por todos e ninguém se tocava. Não questionaram, não perguntaram, não se estarreceram, não fizeram nada contra aquilo que [não] acontecia, apenas viram passar diante deles todos os [não] acontecimentos.
Chegou a hora do almoço, saíram as mesmas multidões do centro da maior cidade do país, como sempre saíam inexoravelmente ao meio dia de todos os dias dos trezentos e sessenta e quatro dias do ano, foram aos bares, restaurantes, lanchonetes e fizeram seu horário do almoço como sempre, sem se impressionarem que os âncoras do maior telejornal vespertino do país não falassem uma palavra, não deram uma única chamada, não abriram a boca, não mudaram expressões do rosto, apenas se via a cada intervalo de minutos [que interessantemente já tiveram paciência de medir a média e chegaram ao número de 7 minutos] o comercial, o momento mais aguardado do dia, aquele em que impreterivelmente olhariam como num ritual mágico todos os presentes para o anúncio do produto mais novo, da novidade mais aguardada, do melhor produto do último século, daquele que mudaria todas as nossas vidas. Passados os intervalos de 30 segundos de cada comercial e de volta o noticiário cada pessoa voltou á conversa e á comilança. Terminou aquela hora sagrada e cada um voltou aos seus respectivos postos nas empresas.
O dia passou sem nenhuma novidade na vida das pessoas, nem alta, nem queda da bolsa, sem crises hipotecárias nos EUA, sem crimes do colarinho branco, muito menos prisões escandalosas da Polícia Federal, nenhum fato extraordinário que pudesse mudar a vida de todas as pessoas. O sol baixou-se atrás da enorme cortina de fumaça no céu e prosseguiu seu rumo como em todos os dias dando lugar a uma lua cheia gigante num céu estrelado. Arrumaram-se todas as malas, trancaram-se todos os armários, as mesas e escrivaninhas foram organizadas e a caminhada de todos os dias e o trajeto de todas as conduções foi feito no empurra-empurra diário, nas encoxadas e num desafio de Física que Isaac Newton se reviraria no túmulo. É possível ter dois corpos no mesmo lugar ao mesmo tempo? A Física Quântica Metropolitana resolve isso todas as manhãs e tardes em todos os dias do ano!
Em casa os televisores ligavam no maior telejornal do país inquestionavelmente ás 8 horas da noite. Os mais conhecidos apresentadores do país esboçaram um simples sorriso e disseram o “Boa noite” habitual [do qual segundo recentes pesquisas confirmam que 70% da população responde ao cumprimento com outro “Boa noite”] e mantiveram a cara de inexpressão durante aquela hora inteira, não falaram, não tossiram, não espirraram, não tiveram acesso de soluço, a lente não saiu do lugar [o telepronter não passava palavra alguma]. Terminou o jornal e a novela começou, todos sentaram pressurosos em frente á televisão e viram atentos á vilã cometer mais uma de suas incríveis maldades e sair ilesa de qualquer tentativa da mocinha de impedir que essa roubasse seu marido. Terminou também a novela, os televisores foram desligados um a um, os casais puseram as crianças nas camas, as camas dos casais foram arrumadas para que estes dormissem e no céu até mesmo a lua passou incólume, sem nada que impedisse seu trajeto noturno.
Amanheceu e mais um dia surgiu, comum como todos os outros, mas desta vez voltaram ás chamadas da manhã a violência, as novidades e as bonanças como se o dia anterior não houvesse existido. O trabalhador, a dona de casa e as crianças também não repararam nisso e seguiram seu dia lindo e feliz calmamente como sempre.

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