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sábado, 7 de fevereiro de 2009

A necessidade e a vontade

Era fútil a vida daquela senhora de 45 anos. De manhã cedo acordava antes do marido, preparava o café da manhã e levava a cama do homem, acordava-o com um beijo e um chamado, colocava a mesinha sobre a cama e ele comia reclamando que estava ruim e que haveria mais um dia de trabalho e que ninguém lhe dava sossego, mas a mulher caridosa não falava nada, na verdade nem ouvia, não havia sentido em ouvir o que o homem lhe dizia. Ela preferia enquanto isso andar e preparar a roupa do homem para que ele fosse trabalhar, colocava-a calmamente sobre o respaldar da cama. Enquanto o homem continuava dizendo impropérios a mulher seguia lentamente para sua rotina diária e com um andor que deixaria impaciente até mesmo uma tartaruga, uma vagareza que não demonstrava somente calma, mas demonstrava o próprio nervosismo, algo inútil de despejar logo de manhã. Foi ao quarto das crianças e acordou o casal. O garoto reclamava de ter que acordar cedo e ir pra escola, a garota reclamava por não estar achando aquela roupa maravilhosa que tinha para ir para a escola (na verdade a mãe nem sabia que a garota já namorava), contudo a senhora continuava com sua tarefa naquela paciência habitual. Ouvia ora uma reclamação dali, ora outro impropério de lá, mas não estourava, era um balão de elasticidade infinita. Encaminhados marido, filho e filha a mulher estava finalmente livre. A casa era somente sua agora. Neste momento poderia fazer aquilo que seu dia lhe reservava com extrema gratidão.
A louça estava em cima da pia e mal se via a torneira, as roupas para lavar enchiam o balde, as para secar não caberiam no pequeno varal do apartamento e as roupas para passar demandariam uma habilidade incrível daquela mulher. Mas isso não era tudo, ainda havia o chão para varrer e passar pano, havia a comida e o banho do cachorro e por fim o almoço para as crianças. Tantas tarefas não eram dificuldade para alguém já calejada pelo tempo, na verdade as tarefas eram muito simples e costumeiras para esta mulher. Decidida, tomou um gole de café e foi-se a pegar a vassoura, iniciou o movimento inicial, mas tão logo começou um pensamento lhe veio. Que tal ligar a televisão e assistir a algum programa da manhã, afinal ninguém saberia e ela merecia assistir àquela novíssima televisão de plasma 42´´ que o marido comprara (“Exclusivamente para diversão, mulher” – dissera o homem quando chegou com a televisão). Sentou-se no sofá, pegou o controle e entrou no vastíssimo mundo de som e cores, que havia sido planejado por diversas pessoas para amplo entretenimento diário, com cultura, esportes, jornalismo e programas. Ah, muitos programas. Programas de comida, programas de confusões de família e vizinhos, programas de fofoca e no intervalo de todos eles muitas propagandas. Aparelhos fantásticos se vendiam na televisão e tudo para comprar pelo telefone. Eram máquinas de fazer suco rapidamente (“a máquina da saúde” - dizia o anunciante), gravadores de disco em CD, câmeras digitais para parcelar em 1001 parcelas sem fim e com a comodidade de sempre. Ainda haviam cremes, óleos, aparelhos de ginástica com milhares de funções e modo de utilização. Além disso o vibrador de abdome que fazia emagrecer e cápsulas de emagrecimento que retiravam a gordura. Muitos, muitos produtos para a satisfação daquela senhora com o poder do controle remoto em suas mãos.
Pegou o telefone e foi atendida muito bem por ótimos atendentes de telemarketing. Comprou de tudo um pouco no cartão de crédito do marido que tinha um limite incrivelmente grande. A entrega seria rápida e logo ela teria o que sempre merecera, pois afinal trabalhara tanto para manter a família que chegara a hora de receber sua recompensa.
A porta tocou e lá estava o primeiro lote de equipamentos moderníssimos que iriam satisfazer todas as suas vontades. A mulher esqueceu a louça, as roupas, o chão e a comida dos filhos e ficou maravilhada de tão satisfeita que estava. Na realidade nunca estivera tão satisfeita na vida.
Os filhos não chegaram cedo naquele dia e a mulher não se preocupou muito, talvez estivessem na casa de amigos. O marido não ligou para ela como deveria ligar e nunca fazia, talvez fosse alguma coisa no serviço que impedia sempre de ligar para a mulher. Entretanto naquele dia nada iria lhe perturbar, pois o dia era dela.
Assim foi passando o dia, o sol foi caindo no céu e tudo foi escurecendo. Quando chegaram em casa os filhos encontraram a mãe sentada em frente a televisão com o controle remoto à mão, o fone do telefone na outra, um sorriso maravilhosamente estranho no rosto e um olhar vivo como nunca tinham visto antes. O marido chegou pouco tempo depois com espanto no rosto de ver tal cena.
Fora o melhor dia daquela mulher, na verdade o único em que vivera. Literalmente.

1 comentários:

Ana Thalita disse...

Nossa que drama...
Mas realmente, não duvido desse tipo de possibilidade na sociedade atual. Uma dona-de-casa (quase escrava) e uma família (se é que se pode considerar uma) sendo destroçada com atitudes assim...
Inadmissível.
Mas infelizmente esse é o drama de muitas mulheres... E querendo ou não convivemos com situações desse tipo diariamente. Porém, vendo por outro lado, de um tempo pra cá isso têm mudado, a mulher na sociedade atual não é mais a mesma e espero que casos como o dessa senhora sejam extintos.
Ah... interessante seus textos, há sempre uma porção de coisas que saem fora da normalidade. Legal isso ;)
Até mais Felipe, lerei os próximos com mais tempo e pensarei na sua proposta, é uma boa idéia.